Lygia Clark

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1965: Do Ato [Diário 2]

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PortuguêsLanguage
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1965
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1965
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Documento guardado dentro do diário de Lygia Clark.
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1965: DO ATO


 

                Pela primeira vez descobri uma realidade nova não em mim, mas no mundo. Encontrei um “Caminhando”, um itinerário interior fora de mim. Antes, o “Bicho” emergia em mim, jorrava em explosão obsessiva – por todos os meus sentidos. Agora, pela primeira vez, com o “Caminhando” – é o contrário. Percebo a totalidade do mundo como um ritmo único, global, que se estende de Mozart até os gestos do futebol na praia.

                O espaço arquitetural me transtorna. Pintar um quadro ou fazer uma escultura é tão diferente de viver em termos de arquitetura. Agora, não estou mais só. Sou aspirada pelos outros. Percepção tão impressionante que me sinto arrancada de minhas raízes. Instável no espaço, parece que estou me desagregando. Viver a percepção, ser a percepção...

                Atualmente, estou doente quase o tempo todo. Não consigo engolir nada e meu corpo me abandona. Onde está o “Bicho” – eu? Eu me torno uma existência abstrata. Afogo-me em verdadeiras profundezas, sem pontos de referência com meu trabalho – que me olha de muito de longe, do exterior de mim mesma. “Fui eu quem fez aquilo?” Perturbação Delírio de fuga. Estou presa apenas por um fio. Meu corpo me deixou – “caminhando”. Morta? Viva? Sou atingida pelos cheiros, pelas sensações táteis, pelo calor do Sol, os sonhos.

               Um monstro surge do mar, cercado de peixes vivos. O sol brilha muito forte e de repente começa a apagar-se. Os peixes: mortos, sobre o ventre, brancos. Depois, o sol brilha novamente, os peixes estão vivos, o monstro desaparece no fundo – os peixes com ele. Estou salva.

Outro sonho: no interior, que é o exterior, uma janela e eu. Através dessa janela, 

desejo passar para fora, que é para mim o dentro. Quando acordo, a janela do quarto é a do sonho, o dentro wue eu procurava é o espaço do fora. Desse sonho nasceu o “Bicho” que chamei “Dentro e fora”. É uma estrutura de aço inoxidável, elástica e deformável. No meio da estrutura existe um vazio. Quando a manipulamos, esse vazio interior dá a estrutura aspectos completamente novos. Considero o “Dentro e o fora” o resultado de minhas pesquisas sobre o “Bicho” (imediatamente antes do “Dentro e fora”, fiz um “Bicho” sem dobradiças que chamei de “Antes do depois”).

               Muitas vezes acordei à janela do meu quarto procurando o espaço exterior como sendo o “dentro”. Tenho medo do espaço – mas a partir dele me reconstruo. Nas crises, ele me escapa. É como se brincássemos – ele e eu- de gato e rato, de perde-ganha.

               Eu sou o antes e o depois, sou o futuro no presente.

               Sou o dentro e o fora, o direito e o avesso.

               O que me toca na escultura “Dentro e fora” é que ela transforma a percepção que tenho de mim mesma, de meu corpo. Ela modifica, estou sem forma, elástica, sem fisionomia definida. Seus pulmões são os meus. É a introjeção do cosmos. E ao mesmo tempo é meu próprio eu cristalizado em um objeto no espaço. “Dentro e fora”: um ser vivo aberto a todas as transformações. Seu espaço interior é um espaço afetivo.

               Em seu diálogo com minha obra “Dentro e fora”, o sujeito atuante reencontra sua própria precariedade. Também ele – como o “Bicho” – não tem fisionomia estática que o defina. Ele descobre o efêmero por oposição a toda espécie de cristalização. Agora o espaço pertence ao tempo continuamente metaformoseado pela ação. Sujeito-objeto se identificam essencialmente no ato.

               Pelnitude. Eu transbordo de sentido. Cada vez que respiro, o ritmo é natural, fluido. Ele se une à ação. Tomei consciência de meu “pulmão cósmico”. Penetro no ritmo total do mundo. O mundo é meu pulmão. Seria essa fusão a morte? Por que essa plenitude tem sabor de morte? Estou tão incrivelmente viva...Como unir sempre esses dois polos? Várias vezes em minha vida descobri a identidade da vida e da morte. descoberta que, no entanto, tinha cada vez um sabor novo. Uma noite tive a percepção de que o absoluto era esse “vazio-pleno”, essa totalidade do interior do exterior de que falo sempre. O “vazio-pleno” contém todas as potencialidades. É o ato que lhe dá sentido.

               O ato de se fazer, é o tempo. Eu me pergunto se o absoluto não é a soma de todos os atos. Seria esse espaço-tempo onde o tempo, caminhando, se faz e refaz continuamente? Nasceria dele mesmo esse tempo absoluto.

                Nós somos uma totalidade espaço-temporal. No ato imanente não percebemos limite temporal. Passado, presente e futuro se misturam. Existimos antes do depois – mas o depois antecipa o ato. O depois está implícito no ato se fazendo. Se o tempo vive no momento do ato, o que provém do ato é incorporado na percepção do tempo absoluto. Não existe distância entre o passado e o presente. Quando olhamos para trás, o passado anterior e o passado recente se fundem.

                Talvez tudo isso não seja claro. Mas a evidência da percepção que tive é a única coisa que me importa. 


ID
65347

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