Lygia Clark

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Dedicado a Norma Finch [Diário 2]

documentType
DiaryDocument Type
artMedium
DatilografiaArt Medium
inLanguage
PortuguêsLanguage
date
1964
dateBegin
1964
author
transcription

 Quando eu entro dentro do meu corpo eu me sinto unida, segura e uma totalidade. De vez em quando porém, eu saio de dentro de mim e vou inspecionar o mundo. Aí eu me sinto na maior solidaõ e o frio me envolve e fico na maior confusão. Acho que é por isto que o artista cria. Isto quer dizer que eu também tenho possibilidades de me defender. E também que o que atua no artista para que ele se elabore é o mundo exterior. No dia em que resolver a ficar só dentro do meu eu, talvez já esteja na posiçaõ horizontal pronta para a morte. Ou talvez me transforme numa contemplativa só que o mundo já naõ mais me atingirá e ele será simplesmente um suporte neutro e abstrato onde será projetada toda minha poética interior. Talvez isto também tenha outro sentido como: quando eu entro dentro do meu corpo eu me sinto segura (se já entro é porque estou segura) e quando saio já é por desequilíbrio das polaridades. O sair é a busca da captaçaõ do que está no ar.


            Estive pensando na multidão de Cristos e Budas que saíram pelo mundo na hora errada e ninguém emprestou-lhes significado maior. Foi o mundo que autenticou o Cristo e o Buda dando-lhes a verdadeira autenticidade dentro da necessidade do momento.

            Arte experimental: Aquela que utiliza tudo que nos cerca mas ainda utiliza a transferência como meio de comunicaçaõ: arte pop arte. (?)

Arte experimental: Aquela que dá a possibilidade ao espectador de se expressar diretamente, sendo que a idéia é do artista. Nesta fusaõ o espectador funde o sujeito-objeto dentro de si e é ele que se expressa- É esta liberdade que seria a arte experimental da liberdade. Esta, é a minha posiçaõ. Aí é que o homem comum vai ter a liberdade que era uma característica do artista até hoje. Liberdade de opção na escolha e consequentemente na vida como atitude ética. Entra aí todo o problema do ato e da imanência do mesmo.

            No primeiro caso a liberdade ainda é do artista que utiliza todo e qualquer meio de expressaõ usando para isto objetos os mais variados. É a arte que invade a vida através dos objetos que a povoam. É ainda uma atitude romântica. Velha como antigamente ainda havia o suporte pronto da poética expressa. A liberdade sempre foi uma característica do artista. O que vai caracterizar agora a arte como sentido etico é que esta liberdade deve atingir ao espectador de uma maneira atuante e direta. Exatamente nesta época em que o homem está cada vez mais automatizado e impessoalizado. Aventura esta que dividirá a arte do futuro da de hoje e será talvez a cisão total. Poder-se-á falar no antes e no depois, pela primeira vez na história da arte. 


ID
65301