Lygia Clark

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Peter, Se é verdade que eu fui um elemento de ligação [Diário 1]

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DiaryDocument Type
artMedium
DatilografiaArt Medium
inLanguage
PortuguêsLanguage
date
1972
dateBegin
1972
location
author
transcription



Peter,


       Si é verdade que eu fui um elemento de ligaçaõ entre voc^e e o mundo, você está sendo o elememto de desligamento entre eu e as coisas claras e vejo em. torno de você somente trevas...Trevas perigosas, insana treva onde medram monstros os mais repelentes. Isto vem vindo de longe e como nas historias biblicas as trevas acabaram por devorar a luz e se fez a escuridaõ total. Ésta, eu me recuso a partilhar com você. Eu sou o bicho que procura a verticalidade, embora as minhas raizes sejam a propria terra.Gosto do que é claro, limpido e otimista. Detesto esta esquizofrenia que só leva a destruiçaõ e ao sofrimento. Me sinto como uma estrutura que foi envolvida por amalgama incolor, gelatinosa que sugou tudo que havia [...] mim, como uma parasita maldita, grosseira, sem sutilezas no[...] e receber pois ela só sabe sentir a segunda parte e que planta resistiria a este amplexo mortal?...Me sinto esmagada, destruida, oprimida e gasta a um tal ponta, só comparavel a sensaçaõ de ter bolsos vazios...pois tudo me foi tirado, até a minha capacidade afetiva de dar “apesar de” e contra os sintomas adversos de qualquer tipo de afetividade. Você é um sujeito maldito. Disto eu estou certa e naõ ha nada a fazer. Para mim chega a minha propria maldiçaõ que é a das pessoas perfeccionistas que buscam sempre a elaboraçaõ atravez de um contacto afetivo. Naõ foi pois gratuita para mim esta experiencia pois atravez de você eu abri em novos enfolhos, procurei soltar as minhas aguas em ribeirinhos antes insuspeitados, conhecendo e provando o amargor das revelações dilaceralmente novas, opostas em polaridades, porem tentando sempre fundi-las no meu ser-sendo que sempre buscou novos encontros, até o momento dele se feixar enexoravelmente como uma ostra encouraçada, numa defesa terrivel contra a destruiçaõ que neste momento é eminente, fatal. Você, no seu terrivel egoscentrismo ficou você mesmo o antes imutavel, o que naõ se abre, o que tem pavor de se dar. O que foi gerado dentro deste corpanzil insensivel e nesta cabeça doentia foi um monstruoso desejo de maguar de matar, de torturar de dilacerar, pobre ser que naõ tem opçaõ que naõ desperta nem piedade, mas sim um odio terrivel de tal maneira que as minhas viceras estaõ enrodilhadas como uma cascavel, pronta para dar o bote fatal: eu te desligo do mundo atravez de minha pessoa, si é que fui realmente elemento neste sentido e te injeto de um um tal desprezo, que sinto minhas viceras engroladas numa ancia de vomito infinito, taõ intenso como se [..]vesse me alimentado de uma substancia ultra venenosa e execravel, que é preciso vomitar me virando pelo avesso para que eu sobreviva limpida e clara na minha integridade. Eu te devolvo a sua pseudo liberdade, pobre infeliz prisioneiro de si mesmo, te devolvo a sua rotina, pobre animal acuado num recesso inaxecivel, te devolvo tambem, sua pseudo-amizade, doença que só os ricos podem ter o privilegio de conserva-la. Ai de ti, monstro que nasceu de uma mulher sem entranhas que se abrem para receba-lo. Ai de ti monstro que odeia por isso mesmo todas as entranhas e tem horror as suas origens e se destroe nesta negaçaõ. Que misterio terrivel envolve um ser que por si mesmo tem tal complascencia e pelos outros um tal odio? Em mim, você teve todos os elementos para fazer as pazes com você mesmo e por conseguinte com o mundo, o que fez desta possibilidade, insensato? Todo o meu querer que foi imenso, você o transformou numa descrença sem limites. Todas as suas possibilidades você as transformou em varias cabeças com enormes borracas e filamentos monstruosos que devoraram desde o sexo até a amizade que poderia ter se salvo como uma flor autonoma depois desta experiencia aterroradora. Eu te desprezo até minhas tripas e fézes.


                                                                                            Clark.

ID
65692